Contaminação do medo: os segredos do HIV

Written By: gtweb.beta - Oct• 26•11

Histórias secretas de mulheres que são silenciadas por uma “nova ditadura”
e pelo medo da discriminação por serem portadoras de um vírus que exige
novas posturas culturais, políticas e sociais. Na prática, o sofrimentos é duplo: pela doença e pela necessidade de escondê-las dos entes mais queridos

Juliana Cristina

“Contaminação do medo/Eu guardo o seu segredo/ Sou o HIV que você não vê/ Mas eu vejo você”. Na música Gosto do Azedo, a roqueira Rita Lee dá voz ao vírus que silencia alguns soropositivos. Por terem medo da discriminação, às vezes não se abrem para amigos nem para familiares e buscam apoio em terapias de grupo para fortalecerem a auto-estima e a vontade de viver. Essa dura realidade, vivida por pessoas em inúmeros países do mundo, pode ser constatada também no Brasil, como acontece com um grupo de mulheres de uma organização não governamental (ONG) em Belo Horizonte.

 

De acordo com a presidente da ONG, a entidade nasceu para atender o público feminino, pois tem aumentado o número de mulheres contaminadas pelo HIV. “É raro o dia em que não se chega uma ou duas mulheres com resultado positivo”, afirma. Segundo a responsável pela ONG, na maioria dos casos elas se contaminaram por parceiros estáveis como namorado, noivo e marido. “Ainda é muito difícil para as mulheres negociarem o uso de preservativos com seus parceiros,” salienta.

 

Todas as quartas-feiras, as soropositivas se reúnem para fazer terapia em grupo e desenvolver trabalhos artesanais que são vendidos para elas se manterem. Agatha* conta que ter o apoio em um grupo é ter liberdade porque viver no anonimato é algo muito difícil “É como ser muda, você quer falar, mas não pode. Tem gente que só de conversar acha que o vírus já tá passando para ela, porque o preconceito é muito grande. Aqui se tem liberdade, lá fora é muito ruim.” Agatha tem 45 anos e descobriu ser portadora do HIV há 12 anos. Soube da sorologia quando se internou ao sentir falta de ar, teve uma infecção hospitalar, tuberculose, foi quando os médicos pediram o teste de HIV.

 

 

PARA MUITAS, DOENÇA VIROU SEGREDO DE FAMÍLIA

Mas, o segredo de ser portadora não é mantido para todos, quando Agatha descobriu ser portadora do vírus HIV sua filha era uma criança de oito anos. Era a menina que acompanhava a mãe nas consultas e exames.  Pai e filha fizeram exames e eles não são portadores do vírus. Na época Agatha não vivia com o pai de sua filha tinha um relacionamento estável com outro homem, mas os laços logo se desfizeram quando ela adoeceu: “Quando eu me internei e estava à beira da morte a pessoa que o apresentou a mim disse que ele era portador e falou mais, que ele era homossexual. Não senti vontade de procurá-lo, quando descobri fiquei muito revoltada. Pensei que se o encontrasse algo iria dar errado entre mim e ele,” desabafa.

 

Um ano depois de se descobrir soropositiva, Agatha se casou com o pai de sua filha. Segundo ela, todos os familiares sabem que ela é portadora do vírus HIV. “Minha família e a do meu esposo sabem e me apóiam. Meu marido é muito compreensível; ele é meu braço direito, ele é tudo”, constata. Mas, ainda assim, por temer que a filha de 20 anos sofresse discriminação na escola e no bairro onde a família mora, ela mantém sua sorologia em anonimato para outras pessoas.

 

Sofia conta que sempre teve hábitos de fazer exames e foi em 1999 que descobriu ser portadora do vírus HIV após ter sido contaminada pelo parceiro com quem viveu por sete anos. Ela não sabia que ele era portador e fala sobre a vulnerabilidade a que todos estão sujeitos. “Todos estão arriscados a ter esta doença. Infelizmente, se não nos prevenirmos, pega mesmo. As mulheres, sobretudo, confiam em seus maridos e não usam preservativos”, observa. O parceiro de Sofia iniciou o acompanhamento tão logo ela comunicou-lhe que era soropositiva.  Porém, ele abandonou as idas ao médico e faleceu há três anos de complicações  em função da doença.

 

 

MULHERES UNIDAS PELO SOFRIMENTO

 

Mas não foi o resultado positivo de HIV que uniu Sofia às outras mulheres. Ela só veio a conhecer a ONG em 2005. Após a morte de seu pai Sofia descobriu que ela estava com câncer. “Quando descobri o câncer eu tive muito mais recaídas do que quando soube do HIV, até mesmo porque eu nunca adoeci por causa do HIV”, relembra. Sofia foi encaminhada à ONG pela assistente social do hospital de onde tratava o câncer.

Na ONG, encontrou apoio das mulheres e de voluntários. “Quando abriram o primeiro sorriso para mim, eu me senti livre naquela hora, eu senti que era gente e que estava viva”, conta. O acolhimento caloroso em que foi recebida sensibilizou Sofia a tornar-se voluntária na ONG, onde trabalha todos os dias em horário comercial. Os filhos vão ao trabalho dela com frequência, porém ser soropositiva é algo que Sofia não revelou para seus familiares.

 

“Eu preferi viver isto para mim sozinha, eu não quis falar para eles, não por medo de preconceito, mas para evitar que eles sofressem. Eles não perguntam por que eu faço parte deste grupo, simplesmente acham que é porque estou ajudando e pronto. Se eles vierem a descobrir eu não vou ficar com vergonha disso não,” revela. Hoje, aos 45 anos, relembra que ao receber o resultado positivo para HIV estava desempregada e dois de seus filhos eram adolescentes e os outros dois ainda eram crianças. Ela recorda: “Sofri muito com isso, estava desempregada e fiquei totalmente perturbada, você pensa no preconceito das pessoas, na falta de ajuda”.

 

 

A DOR TAMBÉM TRAZ SABEDORIA E FAZ CRESCER

 

Sofia considera que enfrentar o sofrimento trouxe-lhe sabedoria e lhe fez crescer: “eu posso expressar que foi bom eu passar por estas coisas a partir destas doenças que eu pude descobrir coisas boas. A gente sofre muito no início. A vida da gente tem que ter sofrimento para a gente poder crescer”.

 

Isaura* ainda mantém o seu segredo, pois nenhum familiar sabe que ela se contaminou pelo vírus HIV. Os amigos que compartilham sua realidade são apenas os que ela cativou na ONG. “Estava deprimida e a assistente social do hospital me indicou para o grupo de apoio. Senti-me bem melhor. Aqui se pode falar, aqui tenho amigos e se aprende melhor a conviver”, revela.

 

O namorado de Isaura, segundo ela, faleceu de complicações de AIDS em 1994. Eles se mantiveram unidos por 12 anos e ela não sabia que ele era portador: “nunca pensei que ele pudesse ter vírus”. Ela tem 58 anos e descobriu-se portadora em 2001. Desde então não conseguiu se relacionar com outro homem por ter que se manter em silêncio. Ela acredita que as pessoas soropositivas devem ter relacionamentos afetivos, mas não devem se revelar tão facilmente. “A menos que o relacionamento fique muito forte, até mesmo porque temos exames e medicamentos não dá para esconder. Preocupa tanto que você não consegue se relacionar. Prefiro ficar sozinha”, justifica-se.

 

 

‘É MUITO DIFICIL LEVAR OS RELACIONAMENTOS ADIANTE’

 

Por temer revelar sua condição, a jovem Dinorah* de 27 anos também diz que não consegue levar seus relacionamentos afetivos adiante. “Quando vejo que estou gostando eu saio fora porque eu sei que não vou ter coragem de contar. Um dia eu vou ter esta coragem e vou contar,” declara. Segundo ela, outro motivo que a dificulta investir nas relações amorosas é que com o passar do tempo os homens querem abrir mão do preservativo. “Por que a gente não faz sem? Eu tenho medo de contar e acabar ficando sozinha”.

 

Há quatro anos, Dinorah teve uma perda de visão, pois estava com toxoplasmose, doença infecciosa causada pelo protozoário Toxoplasma gondii. Inflamações oculares estão entre os sintomas que geralmente manifestam-se em pessoas com a imunidade debilitada. Dinorah ficou internada e os médicos pediram vários exames de sangue, entre eles, o teste para HIV. Foi quando soube que era soropositiva.

 

Dinorah conta que enquanto estava internada os médicos convocaram o noivo dela para fazer o teste de HIV. “O médico sempre o chamava, e ele sempre evitava”, relembra.  Duas semanas após ter alta do hospital, o noivo a procurou e terminou o relacionamento. Ela desabafa: “agora está aí contaminando as outras pessoas, mas eu não tenho raiva dele porque eu também tenho culpa. Se eu tivesse usado preservativo isto não teria acontecido. Só lamento pelas outras pessoas”. Todos da família apóiam Dinorah, mas ela ainda tem resistência em se abrir com os amigos.

 

 

ALÉM DO HIV, HÁ OS PROBLEMAS FINANCEIROS

 

Estas mulheres não trazem só a angústia de terem se contaminado com o vírus HIV. Elas enfrentam ainda a complexidade natural do ser humano e o enfrentamento das dificuldades financeiras. Segundo a presidente da ONG, algumas passam necessidades básicas em suas casas. Assim, a ONG além de acolhimento, presta serviços jurídicos, psicológicos com apoio de voluntários e assiste nas situações mais básicas como o oferecimento de alimentos a estas mulheres. A representante da ONG ressalta a importância de uma alimentação balanceada para facilitar na absorção e metabolização dos medicamentos o que pode ser um problema para as mulheres mais pobres que nem sempre podem desfrutar de uma alimentação saudável.

 

A presidente da ONG relembra o caso de uma senhora que apresentava dificuldades em tomar os medicamentos. A mulher foi encaminhada à organização por um médico infectologista. A responsável pela ONG acredita que a mulher sentiu-se mais à vontade em se abrir com ela sobre suas dificuldades em tomar os coquetéis devido a representante da ONG também ser mulher e mãe. “Esta senhora chegou com uma sacola com vários remédios na mão e com um só dente na boca disse: ‘eu trouxe este papel que este médico mandou’. Ela não sabia ler”, recorda.

 

A responsável pela ONG, acompanhada de voluntários, levou até a casa dessa mulher uma cesta básica e frutas. Ela relata: “quatro meses depois ela me ligou e disse que não iria mais à reunião porque conseguiu um trabalho. E ainda disse que não precisava mais mandar cesta básica”.

 

 

ANGÚSTIA VEM ANTES MESMO DO RESULTADO DOS EXAMES

 

Algumas pessoas tornam-se anônimas logo quando decidem fazer o teste.  De acordo com a gerente do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), Raquel Álvares Silva Campos, em 2010 cerca de mil e seiscentos homens e mulheres passaram pelo CTA para fazer o teste anti- HIV. Localizado no bairro Sagrada Família, região leste de Belo Horizonte, o serviço faz parte do Sistema Único de Saúde (SUS) e realiza de segunda à quinta-feira em dois horários: às 8h da manhã e às 14h palestras seguidas de testes que podem ser feitos com a opção de anonimato para detectar HIV, sífilis e as Hepatites B e C. Os exames ficam prontos em 15 dias e o resultado é entregue individualmente pelo aconselhador.

 

Jussara Vianna de Assis é psicóloga do CTA, há sete anos, dedica-se ao trabalho de aconselhadora, ela conta que percebe que as pessoas ainda fazem associações equivocadas em relação ao HIV e à AIDS. “A gente vê que a maioria das pessoas têm acesso às informações, mas não assimilam de maneira correta.A própria questão de não se colocar como um ser não vulnerável, ‘a gente sempre acha que as coisas acontecem com os outros não com a gente’”, diz.

Para Vianna, a conscientização em relação ao uso do preservativo é um processo de formação que vai além do acesso às informações. Ela explica: “por isso é que esta formação e transformação de ideias já há um tempo são investidas na escola, não é simplesmente com uma palestra, é no trabalho diário, refletido aqui e ali, para ser internalizado”.

 

 

OS PRECONCEITOS CONTRA O USO DA CAMISINHA

A aconselhadora conta que culturalmente a camisinha não é bem assimilada porque a campanha pelo uso preservativo chegou à sociedade junto com a AIDS. “A AIDS já foi associada, infelizmente, desde seu início, a grupos de risco e começou-se a vincular o uso da camisinha a estas pessoas. Tem-se muito presente no imaginário das pessoa assertiva: ‘eu uso com quem eu não conheço, uso quando vou transar com a prostituta, mas com minha namorada ou com meu namorado eu não preciso’. É quase uma ofensa o uso da camisinha”,  explica.

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Porém, Vianna ressalta que os mais jovens têm uma chance maior de internalizar o uso do preservativo desde que comecem a vida sexual com mais informações. Segundo ela, “os mais velhos têm dificuldades, porque já se acostumaram sem ele e acham que não vão ter prazer. Mas acho que ainda prevalece, neste processo cultural, a ideia de que a camisinha é associada com grupos de risco”.

De acordo com a psicóloga, esta associação equivocada das pessoas em acreditar que não é preciso usar o preservativo com o parceiro tem aumentado o número de casos de HIV em heterossexuais casados e com relacionamentos fixos. Segundo a aconselhadora, o CTA trabalha para conscientizar as pessoas para usar o preservativo com o parceiro. “Usar camisinha é prova de amor, porque você está cuidando de você e de quem você ama,” conclui.

 

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