Por Vinícius Andrade e Davi Teodoro

21 de outubro de 2014.

No momento em que a Argentina vive uma das piores crises econômicas da história, a presidente Cristina Kirchner sugere trocar Buenos Aires por Santiago del Estero

Argentinos residentes em Belo Horizonte consideram remota a possibilidade que a capital de seu país mude de Buenos Aires para Santiago del Estero, situada a 400 quilômetros da fronteira com o Chile. A questão foi levantada, recentemente, pela presidente Cristina Kirchner, durante visita à pacata cidade localizada no norte da Argentina. A ideia seria aproximar o país de novos mercados de exportação, como a região asiática. “Hoje, nosso comércio está cada vez mais voltado para o Oriente. Do mundo desenvolvido, só chegam crises e problemas, enquanto os países asiáticos cada vez compram mais nossos produtos”, enfatizou a mandatária em entrevista coletiva.

De acordo com Javier Vadell, membro do Departamento de Relações Internacionais da PUC Minas, para haver maior aproximação com o mercado oriental, não basta que a capital fique mais próxima à Ásia sob o aspecto geográfico. “Só mudar de lugar não vai adiantar. É preciso que o governo invista em melhores ferrovias e hidrovias, além de firmar um acordo com o Chile sobre o corredor bioceânico, um projeto de construção de estradas que atravessam o continente sul-americano e chegam aos portos chilenos”, explicou.
Em relação ao Brasil, o professor acredita que a transferência não apresentaria impactos significativos. “Eu não considero que a mudança da capital alteraria a parceria econômica entre eles. É uma questão mais geopolítica do que econômica”, afirmou. Santiago del Estero é a cidade mais antiga do país – foi fundada em 1563 e está distante de Buenos Aires cerca de 1,2 mil quilômetros. A região foi muito disputada pelos espanhóis e pelo Chile nos séculos 15 e 16.

O fato foi amplamente noticiado pela imprensa argentina e também brasileira. A mídia analisou o discurso da presidente como uma tentativa de fugir dos graves problemas que o país vem passando, como a alta da inflação, baixa criação de empregos, ativos bloqueados no exterior e corrupção. Para o cônsul adjunto Camilo Silberkasten, representante da Argentina em Belo Horizonte, a fala de Cristina foi oportuna. “Ela aproveitou que estava em Santiago e levantou essa hipótese. É um assunto muito importante, e que não impede de debater as questões da atual crise”, destacou. Já o professor Javier Vadell acredita que existam outras prioridades. “Sou um pouco cético que essa questão vá pra frente agora. Primeiro o governo precisa resolver alguns problemas básicos, depois a mudança de capital pode até ser levantada, não acho má ideia”, admitiu.

Ele ainda destaca que a mudança de capital é um problema antigo. “Na época em que a constituição argentina estava sendo montada, em 1853, Buenos Aires estava fora da confederação e a capital era Paraná, da Província Entre Rios. Somente depois da guerra civil, em 1861, é que Buenos Aires se transformou na sede do país. Em 1983, o então presidente Raúl Alfonsín, propôs mudar a capital para a cidade sulina de Viedma, às margens do Oceano Atlântico. Na época, Cristina e seu falecido marido, Néstor Kirchner, apoiaram a proposta, que acabou vetada pelo congresso”, explicou.

A história e o discurso da presidente indica que ela é favorável a uma mudança, mas o cônsul adjunto, Camilo Silberkasten, faz questão de enfatizar que essa possibilidade não passa de uma especulação, “Talvez essa notícia tenha tomado uma proporção muito grande, mas é importante deixar claro que não existe nenhuma proposta concreta para a viabilização dessa ideia”, enfatizou. Mesmo que a chance remota de uma transferência se torne realidade, o representante argentino não consegue imaginar o que isso pode implicar para o país. “É muito difícil fazer essa análise. Teríamos que estudar com mais calma os efeitos dessa eventual mudança”, disse.

camilo cônsul

Camilo Silberkasten, cônsul da Argentina, considera difícil uma mudança no atual momento
Crédito: Davi Teodoro

Com apenas 230 mil habitantes, a província Santiago del Estero é a mais pobre do país. Segundo Javier Vadell, uma mudança desse tipo não acontece do dia para a noite. Seria necessário aplicar um grande projeto de desenvolvimento na região. Ainda de acordo com o professor, é preciso apoio político e uma ajuda externa. “É fundamental investimento para estruturar a nova capital. De onde vai sair esse dinheiro? A única luz seria um investimento chinês. Eu não acho uma má ideia a mudança de capital, mas tem que ser bem planejada para que não fique parecendo um projeto fora da realidade”, completou.

Capitais do Brasil

Ao longo da história, o Brasil teve três capitais. A primeira foi Salvador, na Bahia, em 1549, sendo governada por Tomé de Souza. Por 200 anos, a cidade esteve no centro das atenções políticas e econômicas.

Com aproximadamente trinta mil habitantes na metade do século XVII, o Rio de Janeiro tornou-se a cidade mais populosa do país. A importância aumentou pela proximidade com Minas Gerais, região rica em jazidas de ouro e muito explorada no século XVIII. O consequente risco de contrabando favorecia a escolha de uma capital mais perto da mina, e em 1763, o ministro português Marquês de Pombal transferiu a sede da colônia para o Rio de Janeiro.

Duzentos anos mais tarde, em 1960, o presidente da República, Juscelino Kubitschek, transferiu a capital brasileira para Brasília, região central do país. Considerado um visionário, Juscelino, juntamente com o arquiteto Oscar Niemayer, escolheu um lugar com clima desértico e até então pouco visado. No Centro-Oeste do país, idealizou e construiu o que é Brasília, a capital brasileira até os dias de hoje.