Da gastronomia às indústrias, imigrantes italianos são decisivos para a definição da identidade mineira em dois séculos de convívio

Alisson Millo e Vinícius Dias

21 de outubro de 2015

A boa relação já dura mais de 200 anos. Tudo começou no fim do século XIX, com o fluxo migratório ligado à atividade cafeeira, inicialmente em direção às fazendas da Zona da Mata. Com o passar do tempo, ganhou os centros urbanos, a indústria e, por efeito, a mesa dos mineiros. Ao longo da história, os imigrantes italianos foram decisivos para a construção da identidade de Minas Gerais. Da tradição das massas ao hábito de excluir a última vogal no momento de pronunciar as palavras, seus costumes estão no dia a dia do estado.

A família de Benito Romano Fantoni é um exemplo dessa relação. O patriarca, de 84 anos, nasceu em Roma e recebeu esse nome em homenagem a Benito Mussolini, então primeiro-ministro italiano. Aos cinco anos, mudou-se com a família para o Brasil, onde conheceu Vivien Léa Silva, mineira que se tornou Fantoni. O casal, que hoje reside em Belo Horizonte, teve quatro filhos: Viviane, Benito Júnior, Arianne e Rosane. E se o pai italiano, ex-jogador de futebol, diz se sentir praticamente brasileiro, eles fazem questão de manter vivos os laços com o país europeu.

Em família, Benito e Viviane com os pais Vivien e Benito Crédito: Vinícius Dias

Em família, Benito e Viviane com os pais Vivien e Benito
Crédito: Vinícius Dias

“A gente tem esse vínculo, de torcer para a Itália, tanto quando tem uma Copa do Mundo como no vôlei”, afirma o professor de Educação Física Benito Júnior, de 49 anos. A ligação, contudo, não fica restrita aos nomes e ao esporte. “Desde a época da minha avó, temos o costume de nos reunir na Páscoa e no Natal para fazer o famoso capeletti com massa italiana. Então, também mantemos a tradição da gastronomia”, diz a primogênita Viviane Fantoni, de 51 anos. A mãe Vivien completa. “Os mineiros gostam muito da comida italiana”.

Autor do livro A imigração italiana em Minas Gerais: A Fazenda do Rochedo (1888-1889), o historiador ítalo-brasileiro Anísio Ciscotto Filho defende o argumento de que os imigrantes que vieram para Minas Gerais tornaram-se brasileiros mais rapidamente. “Em São Paulo, por exemplo, eles trabalhavam no café, mas a mão de obra era estrangeira. No Rio Grande do Sul, eles vieram ocupar espaço e criaram grupos coloniais que depois viraram cidades. Aqui, eles vieram para repor mão de obra, então trabalhavam ao lado dos mineiros e se socializaram”, explica.

Estatísticas

De acordo com dados do Consulado da Itália em Belo Horizonte, em todo o estado, cerca de 23 mil habitantes possuem cidadania italiana – destaque para a capital Belo Horizonte, onde residem mais de 40% do total. Embora seja expressivo, o número contabiliza apenas italianos cadastrados oficialmente, conforme pontua a cônsul Aurora Russi. “Se tivéssemos a possibilidade de contabilizar os descendentes, esse número certamente seria maior”.

Além de Belo Horizonte, há pelo menos dois eixos de presença marcante de ítalo-brasileiros no estado. “Em toda a faixa desde o Triângulo Mineiro para baixo, sobretudo na divisa com o estado de São Paulo e, também, com o Espírito Santo. Outro eixo de concentração é o caminho de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro, passando por Barbacena, São João Del Rey, Juiz de Fora”, enumera Aurora Russi.

Cônsul Aurora Russi, ao lado do historiador Anísio Ciscotto Crédito: Vinícius Dias

Cônsul Aurora Russi, ao lado do historiador Anísio Ciscotto
Crédito: Vinícius Dias

Desde 2007, a capital sedia a Festa Tradicional Italiana, evento que, ano a ano, tem reforçado o vínculo entre europeus e mineiros. “Com certeza, esse é o momento em que toda a cidade de Belo Horizonte fala da Itália, recebemos pessoas que vêm ao consulado perguntar quando acontecerá a festa. Isso mostra que ser italiano aqui é uma vantagem. Todo mundo gosta de você”, argumenta a cônsul. “A festa é uma prova, mas também um dos motivos pelos quais temos essa integração”, completa.

Relação comercial

A boa relação entre Minas e Itália é confirmada no contexto comercial. De acordo com levantamento do Exportaminas apresentado à reportagem pela Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio, Indústria e Artesanato de Minas Gerais, o país foi o 4º principal fornecedor (US$ 442 milhões) e 8º maior comprador (US$ 388 milhões) de produtos do estado nos sete primeiros meses deste ano. Na pauta de exportações, há destaque para os cafés verde e torrado, que representaram 52% do total, e celulose, com 11,4%.

Nessa perspectiva, Anísio Ciscotto Filho, membro do Conselho Diretor da Câmara de Comércio, destaca que, atualmente, a presença de empresas de origem italiana em solo mineiro é um importante fator de atração de imigrantes. “Hoje, a gente recebe muita mão de obra qualificada. Por exemplo, duas empresas italianas estão para se instalar na Região Metropolitana de Belo Horizonte, uma em Matozinhos, outra em Sete Lagoas”, revelou.

O turismo é outro setor crucial para a economia mineira que mantém forte diálogo com o país europeu. Segundo dados da Embratur (Instituto Brasileiro de Turismo), mais de 6 mil italianos desembarcaram no estado nos últimos dois anos. A cônsul Aurora Russi avalia que a boa relação é determinante para o resultado. “Mineiros e italianos são muito parecidos e, desde que começou o fenômeno da migração, os mineiros acolheram os italianos muito bem”. No período, somente estadunidenses, portugueses e argentinos desembarcaram em maior número.