A Organização não-governamental atua em conflitos armados e catástrofes, levando cuidados de saúde a populações em crise humanitária

Adriano Kesley e Thales Ribeiro

27 de maio de 2019

A doutora Eliane Sander Mansur, que atua como cirurgiã geral na organização não-governamental Médicos sem Fronteiras (MSF), conta sobre a importância da ajuda humanitária a pessoas em situação de riscos, seja em conflitos armados, seja em casos de epidemias. Formada em Medicina pela UFMG, participa há 12 anos do programa Médico sem Fronteiras, conciliando trabalhos na clínica de Coloproctologia do Hospital Felício Rocho e do Ipsemg.

Pergunta: Qual a importância de Médicos Sem Fronteiras para a saúde pública mundial?

Resposta: – A Médicos Sem Fronteiras oferece cuidados de saúde a pessoas com necessidade de ajuda humanitária. Os principais contextos nos quais a organização atua são conflitos armados, epidemias, catástrofes naturais e situações que envolvem refugiados e deslocados internos. Além de oferecer cuidados da saúde em situações de extrema urgência, as equipes também estão presentes onde as populações sofrem com a falta de acesso à assistência médica.

– Como a organização atua de forma independente, neutra e imparcial, o MSF determina, de acordo com sua própria avaliação, onde, quando e como atuar. Um projeto pode ser desencadeado pela existência de uma situação de crise que requer uma resposta humanitária emergencial, pelo pedido de organizações internacionais, de governos ou mesmo de outras organizações não-governamentais ou ainda pela identificação de uma demanda de saúde específica, com a qual a organização considera que possa contribuir de forma relevante.

– Para a MSF, levar ajuda médico-humanitária às pessoas significa estar próximo delas e conhecer suas necessidades, seu sofrimento. A organização entende, como parte fundamental de seu trabalho chamar a atenção para as situações vividas por essas pessoas, de modo a tornar públicas as crises humanitárias com as quais trabalha.

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Dra. Eliane, durante missão em Batangafo, na África. (Foto: Hospital Felício Rocho/Divulgação)

Pergunta: Como funciona o recrutamento e a organização dos grupos para inserções em países que necessitam de atendimento? E como a senhora ingressou na equipe de médicos do programa?

Resposta: – Frente à situação de crise são encaminhados ao local profissionais da MSF que analisam as necessidades de saúde, as condições de vida, água e saneamento, o ambiente político e a capacidade local de responder ao problema. Assim, a organização toma a decisão de atuar ou não naquele país, determinando as prioridades e compondo a equipe que entrará em ação e os recursos necessários para iniciar o projeto.

– Uma vez iniciado, as equipes são montadas com profissionais recrutados de maneira independente e cada um com contrato individual, cuja duração varia com a disponibilidade do profissional, podendo variar de algumas semanas a alguns meses, de acordo com o contexto e também com a posição do profissional (médico, enfermeiro, coordenação, logística, administrador, etc) no projeto. Para o recrutamento de cada profissional é feito um cadastro e em seguida uma avaliação de curriculum e testes psicológicos para avaliar a experiência e qualidade técnica e também o perfil psicológico necessário para trabalhar em contextos de grande carga de stress. Uma vez selecionado o médico fica à disposição da ONG para ser encaminhado a alguma missão/ projeto de acordo com seu perfil e experiência com MSF.

– Eu me submeti ao recrutamento de MSF em 2007 e desde então tenho trabalhado em projetos todos os anos, por períodos de dois a quatro meses, como cirurgiã geral.

– Desde 2007 já trabalhei na República Centro Africana (duas vezes), República Democrática do Congo (três vezes), Haiti (duas vezes), Honduras (uma vez), Afeganistão (duas vezes), Paquistão (uma vez), Burundi (uma vez), Sudão do Sul (uma vez). Este ano já tenho missão programada para o Afeganistão no segundo semestre, por dois meses.

Pergunta: Como à senhora concilia seu trabalho no hospital Felício Rocho e as missões que recebe do programa?

Resposta: – O meu trabalho no Hospital Felício Rocho é como autônoma, atendendo e operando pacientes de convênios. Como não existe um vínculo empregatício, apenas deixo de atender e operar no período em que vou para as missões. Faço parte da equipe de coloproctologia do HFR, somos nove colegas, e quando estou fora, minha equipe assume todas as demandas de meus pacientes, sendo de grande importância este apoio, uma vez que permite que eu possa me dedicar ao trabalho humanitário sem que meus pacientes tenham seus tratamentos prejudicados pela minha ausência.

– Como atuo como cirurgiã geral em MSF (fiz cirurgia geral no Hospital de trauma João XXIII, onde trabalhei por 14 anos), e em cada projeto contamos com apenas um cirurgião, em todas as missões, sou responsável pela qualidade da assistência médica cirúrgica, independente do contexto, e essa responsabilidade torna todas as missões extremamente estressantes e são sempre grandes desafios. Os contextos de conflitos armados são mais complexos, pois, além dos aspectos técnicos da assistência médica ainda temos as questões relativas à nossa segurança que podem ser bem complicadas, aumentando mais ainda o stress. É um grande desafio que precisa ser enfrentado, sempre.

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Kinngston de 4 anos, vítima de queimaduras com água quente em Burundi, na África. (Foto: Site MSF/Divulgação)

Pergunta: Com o aumento das campanhas como a antivacinação e a escalada ideológica conservadora no mundo, a realização de atendimentos em zonas de conflito se torna mais difícil?

Resposta: – Nossa atuação em Médicos Sem Fronteiras é norteada pela carta de princípios da organização a seguir:

– A organização Médicos Sem Fronteiras leva ajuda médico-humanitária às populações em perigo e às vítimas de catástrofes de origem natural ou humana e de situações de conflito, sem qualquer discriminação racial, religiosa, filosófica ou política.

– Trabalhando com neutralidade e imparcialidade, Médicos Sem Fronteiras reivindica, em nome da ética médica universal e do direito à assistência humanitária, a liberdade total e completa do exercício de suas atividades.

– Os membros da organização se empenham em respeitar os princípios deontológicos de sua profissão e em manter total independência em relação a todo poder, bem como a toda e qualquer força política, econômica ou religiosa.

– Voluntários, eles compreendem os riscos e os perigos dos trabalhos que realizam e não reclamam para si qualquer compensação que não seja aquela oferecida pela organização.

Pergunta: Quais os principais desafios enfrentados pelos médicos do programa ao prover atendimentos pelo mundo?

Resposta: – Como a MSF atua em contextos de crises humanitárias, ou seja, grande demanda de assistência médica para um grande número de pessoas, em situações de necessidades extremas, com enormes limitações estruturais e ainda em meio a conflitos armados, trabalhamos sempre sob excessiva sobrecarga física e emocional.

– Como as estruturas de saúde locais são extremamente precárias ou inexistentes, é necessário organizar toda a infraestrutura para a realização de cirurgias com qualidade, conforme padrões internacionais, e conforme nosso compromisso com a população local, o que demanda grande esforço da equipe logística junto com os profissionais da área médica: enfermeiras, médicos e psicólogos.

– A assistência médica em cada projeto é realizada conjuntamente pela equipe de profissionais estrangeiros e a equipe de profissionais do próprio país, condição esta fundamental para que o trabalho possa ser realizado.

– Esta oportunidade de compartilhar o trabalho e a vida do dia a dia com o staff nacional é extremamente rica de experiências e aprendizado, onde cada um ensina e aprende.

– Nesse encontro, todos ganham a oportunidade de compartilhar suas culturas, diminuindo assim as distâncias, tornando possível uma maior compreensão das diferenças e, consequentemente, a construção de uma realidade melhor para todos.

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A organização leva assistência e cuidados preventivos a quem necessita, independentemente do país (Foto: Site do MSF/Divulgação)

Atuação Plural na Defesa dos Direitos Básicos

Criada em 1971 por médicos e jornalistas franceses, a Médicos Sem Fronteiras (MSF) é uma organização humanitária internacional independente que trabalha com voluntários, assumindo o compromisso de levar ajuda às pessoas que vivem em situações extremas e que possuem pouco ou nenhum amparo, sem discriminações como raça, religião ou ideologia.

Como resposta às limitações da ajuda humanitária internacional existente até então, que enfrentava sérias dificuldades como o acesso às regiões de atuação e impasses burocráticos e políticos que frequentemente resultavam em omissão, a MFS surge como organização humanitária que defende a associação entre a ajuda médica e a sensibilização do público sobre o sofrimento destas pessoas negligenciadas, conferindo-lhes visibilidade.

Além de atendimento médico de emergência em zonas de conflito, a MSF também oferece acompanhamentos específicos como cuidados com a saúde mental da população, atendimento a vítimas de violência sexual, distribuição de alimentos e itens de primeira necessidade, construção e manutenção de sistemas de saneamento básico e distribuição de água, recuperação de hospitais e clínicas e treinamento profissional.

Além dos trabalhos de campo, a MSF é também co-fundadora e financiadora da Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas (Drugs for Neglected Diseases Initiative – DNDI), organização internacional não-governamental com fins científicos que, no Brasil, atua na pesquisa e desenvolvimento de medicamentos para o combate doenças como a malária e a doença de Chagas.

Em 1999, a MSF recebeu o Prêmio Nobel da Paz, sendo selecionada “em reconhecimento ao trabalho humanitário pioneiro em diversos continentes” e para honrar seus profissionais da medicina, que já haviam atuado em mais de 80 países e realizado o tratamento de dezenas de milhões de pessoas.

Atualmente o programa conta com mais de 36 mil profissionais de diferentes áreas e nacionalidades, atuando em mais de 72 países. Sem ajuda governamental, cerca de 90% do financiamento de MSF é fruto de doações de pessoas físicas, tendo uma pequena parcela de contribuição proveniente da iniciativa privada.