Longe das zonas de guerra, cidadãos buscam realização em países árabes

Por Bruno Costa e Matheus Prado

13 de abril de 2016

Meline Garcia, 25 anos, é brasileira de Jundiaí, interior de São Paulo, radicada em Portugal. Ou pelo menos era. No início de 2016, passou por um processo seletivo para se tornar comissária de voo de uma grande companhia aérea sediada em Dubai. Ultrapassando as desconfianças iniciais em relação ao local, deparou-se com uma realidade muito diferente da que esperava. O ambiente de guerra não existe e o emirado possui uma economia forte, além de oferecer uma boa infraestrutura para a população.

O Oriente Médio hoje, mantém duas realidades distintas. Enquanto países como a Síria e o Iraque vivem à sombra de grupos fundamentalistas, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos possuem um ambiente pacífico e próspero. Sustentadas principalmente pelo mercado de pérolas e petróleo, as grandes monarquias da região vão na contramão da crise econômica mundial e dizem seguir investindo em melhorias para a população.

Meline participou de uma mostra que a empresa organiza em várias regiões do mundo e foi uma das escolhidas. Formada em fotografia, a jovem conta que não estava trabalhando em sua área, por isso buscou essa mudança de rumo em sua vida. Ela parece ainda nem acreditar. “A bordo dos aviões A380 e B777, conheço lugares de todo o globo. Além de brasileiros e portugueses estou trabalhando com pessoas de 41 nacionalidades diferentes. O que pesou para mim foi a estrutura oferecida. Além um contrato de três anos, a companhia também custeia minha moradia e transporte”, completa.

Meline faz treinamento em escola de companhia aérea  Crédito: Arquivo pessoal

Meline faz treinamento em escola de companhia aérea
Crédito: Arquivo pessoal

 

Mercado de trabalho

Essa incessante injeção de capital nas grandes cidades faz com que as oportunidades de emprego cresçam cada vez mais, tornando a mão de obra local insuficiente. Para Durval Fernandes, professor de pós-graduação de Geografia na PUC Minas, o grau de investimento é alto nesses países porque seus regimes são monarquias com famílias muito ricas, então o dinheiro é garantido por eles. Muitos estrangeiros já chegam com emprego, principalmente na área da construção civil, que é dominada por imigrantes asiáticos e indianos. “A região segue na contramão da tendência mundial, tendo uma alta demanda de obras de infraestrutura como o Catar, que está se preparando para sediar a Copa do Mundo de 2022”, afirma o professor.

Todos esses fatores abrem espaço para brasileiros de classe média que possuem curso superior e querem sair do país para buscar outra realidade político-econômica. Tendo o domínio da língua inglesa como diferencial, executivos negociam bons contratos para fazer parte dos quadros das empresas emiratenses e sauditas. Levam também suas famílias, para fazer com que a adaptação seja um pouco menos complicada. Este é o caso de Andrea Varella, 37 anos, paulistana que, com o marido, Márcio, e os filhos mudou-se para Abu Dhabi após ele se tornar funcionário de uma multinacional. A empresa arca com as despesas de moradia e educação dos Varella.

Os filhos do casal têm, 11 anos (Lara) 7 anos (Miguel), 2 anos (Elis), e para a mãe esse foi um ponto que causou um pouco de receio: a adaptação. “Não posso dizer que a adaptação deles foi fácil. As línguas aqui são basicamente o inglês e o árabe e eles chegaram aqui sem falar nenhuma palavra de nenhuma das duas. Como eu cheguei em junho (época de férias), a primeira coisa que fiz foi matricular os dois mais velhos em uma escola de inglês. Eles tiveram aulas por dois meses até começar as aulas e isso ajudou bastante”.

Filhos de Andrea Varella se adaptam a nova cultura. Da esquerda para a direita: Lara, Elis e Miguel Crédito: Arquivo pessoal

Filhos de Andrea Varella se adaptam a nova cultura. Da esquerda para a direita: Lara, Elis e Miguel
Crédito: Arquivo pessoal

 

Por todos estes fatores, estes países se tornam opções viáveis para imigrantes em busca de uma nova vida. O inglês, idioma universal, é a língua mais usada nas regiões empresariais. Por outro lado, isso afasta e segrega os cidadãos locais, já que possuem costumes diferentes dos ocidentais.

Choque cultural

Alguns aspectos da cultura árabe diferem bastante do que se costuma ver no Brasil. Além do modelo de governo monárquico, o islamismo é a religião oficial desta região, e seus seguidores tratam o assunto com bastante seriedade. Por isso, este é um dos pontos em que o respeito tem que vir em primeiro lugar.

Andrea acredita que existe um choque cultural sim, mas ele acaba durando pouco tempo. “Em um mês nos acostumamos a ouvir os chamados para os horários de oração. As roupas utilizadas pelos locais também chamam atenção. No meu caso, queria entender melhor o símbolo de cada roupa e costume pra poder entender a sociedade e assim poder respeitar mais. Isso não é fácil. Estou aqui há dois anos e a cada dia aprendo alguma coisa diferente”, diz.

O Ramadã, nono mês do calendário islâmico, é um período em que os muçulmanos renovam sua fé. Para isso, jejuam enquanto o sol está no céu, praticam muita caridade e intensificam suas práticas religiosas. Meline diz que é um momento em que a sociedade funciona de forma diferente. Apesar de ainda não ter vivido o período in loco, já foi avisada sobre como proceder. Mesmo que a pessoa não seja islâmica, é proibido comer, beber, fumar e até mascar chiclete em público. Os cafés e restaurantes ficam fechados, na sua maioria, e qualquer desrespeito às regras é passivo de multa.

Outra discussão latente no mundo em relação ao Oriente Médio é o papel e os direitos das mulheres na região. Rizana Rafeek, 24 anos, imigrante do Sri Lanka, trabalhava como empregada doméstica em Riyadh, na Arábia Saudita. Ela foi condenada à morte e decapitada, suspeita de assassinar um bebê de que cuidava. Apesar da condenação, Rizana dizia que a criança morreu asfixiada após se engasgar. O caso ganhou grande repercussão e gerou muita revolta. “Por exemplo, em alguns lugares uma mulher não pode dirigir um carro. A punição é muito severa para essas coisas, como prisão, multa e até castigos corpóreos”, relata Durval Fernandes.

Com tanta repercussão negativa, alguns países ou cidades-estado já começam a adotar medidas em relação a isso. Em Dubai, as mulheres têm uma carruagem exclusiva no metrô. Apesar da medida não resolver definitivamente o problema, diminui as chances de um ataque. Além disso, não são obrigadas a utilizar as burkas completamente fechadas. Meline e Andrea contam que nunca sofreram nenhum tipo de preconceito, mas também não têm grande contato com os moradores locais.

Ídolo da Arábia Saudita         

Uma história que também tem se tornado rotina é a de jogadores de futebol que assinam ótimos contratos no Oriente Médio e vivem uma vida luxuosa. Como o futebol é uma paixão dos cidadães locais, porém recente, os jogadores são idolatrados pela população.

Rodrigo Junior Paula Silva, mais conhecido por Digão, é um destes casos. Nascido em Duque de Caxias, o zagueiro apareceu para o futebol no Fluminense, onde foi bicampeão brasileiro. Depois assinou contrato com o Al Hilal, de Riyadh, onde joga até hoje. Pelo clube saudita também foi multicampeão, atingindo um status de ídolo. Ele conta que em todo jogo em casa o estádio fica lotado, com festa nas arquibancadas, como se fosse uma partida de Corinthians ou Flamengo.

Apesar disso, Digão vive uma vida à parte da população local. Apesar do contato diário com os torcedores e jogadores locais, os interesses não são os mesmos. As pessoas são mais reservadas e não têm tanta vida social. “Quando faço algum jantar ou resenha aqui em casa, sempre convido os caras. Até hoje eles não vieram nenhuma vez, mas respeito os costumes deles”, afirma.

Mesmo com esses obstáculos, o carioca se considera muito feliz vivendo na Arábia Saudita. “No começo as coisas eram difíceis, mas agora estamos adaptados, isso facilita muito. Minha filha estuda em uma escola americana muito boa e adora viver aqui. Estou feliz demais”, finaliza.

Digão mostra título conquistado pelo Al Hilal Crédito: Arquivo pessoal

Digão mostra título conquistado pelo Al Hilal
Crédito: Arquivo pessoal